O LIVRO

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Ainda há muito
o que falar

A Augusta enterrou seu único par de sapatos naquela grossa camada de lama das ruas que a gente bem conhece. O Roberto, cantando para um cinema lotado, esqueceu a letra da música. A Vera, nos seus 7 anos, foi, eufórica, conhecer o tão falado cinema e voltou chorando porque roubaram sua bolsa. O Agenor, perseguido pela professora, pediu um segundo examinador no exame, para conseguir passar.

E que importância tem isso? É só emoção.

Pequenos casos como esses não mudam a história. Não são dados históricos. E, se tiverem algum valor, a informação não tem o rigor exigido por documentos oficiais.

Mas, coisas assim fazem parte do nosso folclore, como as lavadeiras equilibrando trouxas de roupa pelas ruas, os cães que paravam de latir quando passava o enterro, a costureira que vestia todas as debutantes sem repetir um só modelo.

Ourinhos tem razoáveis documentos históricos nas bibliotecas e até nas redes. As mesmas redes permitiram juntar um valioso acervo fotográfico que traz os principais momentos destes últimos cem anos. A história de Ourinhos parece estar bem registrada em publicações e documentos oficiais.

Mas os costumes, os hábitos, o modo de vida não cabem em documentos e nem aparecem em fotos.

Esse é o propósito deste trabalho: não deixar morrer no esquecimento o jeitão ourinhense dos anos 50. Uma época sob a influência da segunda guerra, que tinha acabado pouco antes. Um tempo em que os jornais chegavam de trem, com dois dias de atraso. O noticiário cinematográfico que antecedia os filmes do Cine Ourinhos era de um mês atrás.

A forte influência americana que chegava pelos filmes se misturava com a herança caipira dos primeiros moradores e criou um jeito de ser. É o que este trabalho tenta recuperar, mas está longe de ser completo. Muita gente ainda tem ótimas histórias para contar e podem contar, em uma próxima edição desta Poeira da Velha Ourinhos. Basta mandar suas lembranças para o www.poeiraafetiva.com.

Ainda há muito o que falar.

Ninguém falou do Tufi do cinema. Nem do Luizinho Diniz, o diretor mais divertido que já passou pelo ginásio. Ou do jardim, onde as moças andavam prá-lá-prá-cá e os marmanjos ficavam em pé na beira da calçada olhando. Não falaram das músicas oferecidas pelo alto-falante. E muito menos de um rapaz que tocava violão em um banco lá no meio da praça, um certo Ari Cristoni, que ainda não se chamava Ari Toledo.

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